quinta-feira, 30 de abril de 2015

Quando chove dentro da gente

Às vezes, a gente não se molha na chuva de fora. Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas existe uma chuva que só chove dentro da gente. Ela chega forte, alaga nossas entranhas sem sequer uma mísera gota atingir a superfície da nossa pele. Quando chove dentro da gente, a alma fria se aquece como um daqueles mecanismos de arrefecimento que ninguém precisa ligar pra funcionar, inteligentes que nem a gente não é. A gente é muito burro. Vai ver é por isso que às vezes chove dentro da gente. E vai molhando as nossas dúvidas, limpando a nossa essência, arrastando violentamente nossos pilares ocos, deixando a ver navios aquelas certezas encostadas. Depois que esse tipo de chuva passa, a gente ouve um vinil bem antigo na casa da Felícia e vai tentando não cair no abismo entre as palavras velho e cansado. Certas chuvas chovem dentro da gente quando a gente chora. Eu descobri isso um dia desses quando eu, chorando, fechei meus olhos e os revirei na própria órbita. Foi a primeira vez que eu vi como é lindo, como é lindo quando chove dentro da gente.