segunda-feira, 13 de julho de 2015

Meu querido Frodo

Acho que aquela mendiga entrou aqui. Devo ter deixado a porta aberta, ou ela se escondeu dentro de algum boleto e acampou na minha gaveta de prioridades. Sinto como se ela massageasse cada pedacinho do meu corpo, como se ela deitasse em cima de mim e, de tão pesada, não me deixa levantar quando o celular desperta. Sinto como se ela soprasse minha comida, fazendo-a esfriar antes do que deveria. Às vezes, ela aperta minha cabeça e me deixa a tarde inteira com enxaqueca. Um dia desses, ela me pediu uma esmola e eu neguei. Eu tive que negar porque o que ela me pediu eu não tenho pra dar. Ela me pediu tempo. Pediu pra eu parar um pouco a correria de todo dia e cuidar dela que ela tava precisando de atenção. Mas é que, que inferno!, ela me atrapalha tanto que o único tempo que me resta, eu só consigo usar pra recuperar os prejuízos que ela me dá. Olha, confusa da cabeça eu sempre fui, eu sei. Mas eu andei tão consciente de uns tempos pra cá, sabe? Me sinto lúcida como se fosse morrer. E fria. E frio. Sinto tanto frio que às vezes em pleno sol de meio-dia, me pego andando na rua de cardigã. Devem achar eu eu fiquei maluca. Devem ter razão.

Ontem, eu saí pra correr à noite (tenho feito isso pra poder chorar em paz), e vi um cachorro comendo restos de despacho do lado do cemitério. Ele havia perdido uma orelha. Eu olhei praquela cena e vi a dor estampada no olhos dele, cada movimento da mandíbula mastigando fazia-no soltar pequenos chorinhos e se tremer todo. Eu deveria ter desabado ali, ter entrado em desespero pra ajudar aquele cachorro, mas eu senti uma serenidade tão grande, tão grande. De uma forma estranha, eu sabia que nada que eu fizesse iria reconstruir uma orelha, ou reverter a infecção, e que aquele cachorro era uma questão de Deus e que Deus sabe todas as coisas. Segui a corrida rezando pra ele morrer logo e ir pro céu pros anjos cuidarem dele. Eu segui, mas não conseguia parar de pensar naquele cão, imaginando o que tão de ruim ele fez pra ter perdido a orelha. Foi quando me dei conta do quão indiferente eu fui àquele encontro que eu desabei. Porque é exatamente o que tô fazendo com a minha vida e as pessoas. Tô indiferente a todos os abismos e mazelas humanas possíveis, deixando pra lá problemas dos outros e sobrecarregando Deus com todos eles, mais os meus.

A verdade é que no final das contas, eu não tenho uma coisa pra realmente chamar de problema. Eu tenho saúde (não muito a mental, é bem verdade), mas sou absurdamente feliz com pequenas gentilezas, jogo limpo com as pessoas, meus pais me amam, meu cachorro adora me ver, tenho amigos fantásticos, reconhecimento profissional, bebo quando quero e meus boletos estão todos em dia. Mas eu sei que há alguma coisa errada comigo, e eu sei que é ela, a tal mendiga. Olho pra essas coisas na minha vida que estão todas certas e não consigo entender, não consigo entender o que ela quer logo comigo! Sempre ouvi dizer que depressão é coisa de gente triste, mas, meu Deus, o que me explica? Eu vivo rindo, todo mundo sabe. Eu morro de rir que qualquer coisa que pra mim tenha muita graça. Uma vez eu li que um sorriso é luz. Mas até a luz tem seu espectro traiçoeiro. Olha os mosquitos que morrem queimados nas lâmpadas. Olha os peixes que são devorados poe aqueles outros fluorescentes nas zonas abissais do mar. Deve ser o contraponto, Se há luz, também há treva.   

Quero que ela pare. Já dei a ela tudo que não podia dar.
Quero que ela saia. Antes que eu me acostume com ela ficar.

Saudade.
E socorro.