Ninguém partiu meu coração. Ninguém nunca nem por um segundo sequer tocou nele. Eu mesma o parti. Qualquer
estrago que você descobriu quando conseguiu espiá-lo pela fresta do meu sorriso,
foi feito por mim. Apenas saiba disso.
Quando você tocou a campainha, dei um jeito de tirar a poeira das minhas lágrimas e escondi minhas inseguranças num vasinho amarelo ao lado da foto que tiramos deitados na praia, dividindo fones de ouvido. Escondi minha bagunça sentimental para um cantinho que a sua visão não alcançava. Arredei para a beira da cama a pilha caótica de emoções que acumulei durante anos e sempre tive preguiça de dobrar e agasalhar nas gavetas certas. Fiz isso para que sobrasse uma pontinha de cama para você um dia sentar. Ficou até confortável dentro. Só que ficou desconfortável fora.
Quando você tocou a campainha, dei um jeito de tirar a poeira das minhas lágrimas e escondi minhas inseguranças num vasinho amarelo ao lado da foto que tiramos deitados na praia, dividindo fones de ouvido. Escondi minha bagunça sentimental para um cantinho que a sua visão não alcançava. Arredei para a beira da cama a pilha caótica de emoções que acumulei durante anos e sempre tive preguiça de dobrar e agasalhar nas gavetas certas. Fiz isso para que sobrasse uma pontinha de cama para você um dia sentar. Ficou até confortável dentro. Só que ficou desconfortável fora.
Foi quando parti meu coração. Na
noite em que desceríamos aquela alameda que sempre descíamos juntos, porque eu
tinha medo que as casas ganhassem vida e me espremessem, ou que as poças d’água
virassem pessoas e me arrastassem pelos pés para outra dimensão. Tinha
alguma coisa errada ali e não era a minha imaginação. O errado ali era o
não-você. Olhei para trás o vi parado no começo da
ladeira que naquela noite você não desceu. Olhei você de baixo para cima e a
ladeira que nos separava pareceu uma estrada de milhares de quilômetros. Eu entendi, mas não soube o que dizer. Você sabia como me acompanhar. “Não
consigo te abrir”. O sentido veio para mim como um clarão.
Naquela noite, atravessei a alameda sozinha, sangrei a ponta dos dedos em algumas paredes, chutei poças d’água e pulei em todas as pessoas impossíveis nelas. Quando olhei para trás, tudo no meu coração se bagunçou de novo. Sentei naquela pontinha da cama. Vasinho amarelo quebrado. Tudo vazio. Só você no retrato.
Naquela noite, atravessei a alameda sozinha, sangrei a ponta dos dedos em algumas paredes, chutei poças d’água e pulei em todas as pessoas impossíveis nelas. Quando olhei para trás, tudo no meu coração se bagunçou de novo. Sentei naquela pontinha da cama. Vasinho amarelo quebrado. Tudo vazio. Só você no retrato.