segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Vive ou vaza

Não me queria tão amarga esses dias. Me queria como sempre encantada, apaixonada, esquisita. O fato é que depois que a gente aprende que a tomada dá choque, a gente evita até a parede. A gente vai atar a rede em outro lugar.

Descobri em mim um tipo de alarme de abismos, uma coisa que eu ainda não sei exatamente quando começou, mas que vem me desviando de uns e outros perrengues sentimentais. É algo que me inquieta quando tem alguma coisa errada, coisa que, na maioria das vezes, eu ainda nem sei se vai dar errado, mas que só pelo fato de estar incerta, já deu.

Quem dera que a gente pudesse acessar o amanhã e catalogar o que presta e o que não presta, quem vale a pena e quem não. A verdade é que ninguém deveria valer a pena, porque pena é uma coisa ruim pela qual não deveríamos passar. O certo seria a gente só se envolver quando o alarme de abismo não disparasse, quando a nossa alma meio que escaneasse a outra e não houvesse perigo. Mas, sabemos que não pode ser feito dessa forma. Há que se tomar o choque para então passar a evitar a tomada, ou, no meu caso, a parede toda.

A única coisa que eu sei é que de ontem em diante, eu não quero mais andar ao lado de quem anda mais rápido do que eu, ou de gente que desacelera do nada e não avisa. Tá proibido abandonar pelo caminho. Ou segue comigo e vive, ou dobra na primeira esquina e vaza.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Medo do tempo

Todo mundo é impotente diante dele. Não conheço meia pessoa que já o tenha conseguido enganar. Ele é assim, experiente, esperto, macaco. Cheio de vantagens sobre nós, meras vias de mão única, por onde ele só passa e nunca volta, Não há como desviá-lo, confundi-lo, burlá-lo. Como eu disse, ele é esperto.

Às vezes, me pergunto se ele, enquanto algo tão óbvio, justamente por ser tão óbvio, existe apenas enquanto ideia óbvia. Que nem a coisa do óbvio utópico que existe, mas não existe. Intrigante. Queria poder ignorá-lo e me preocupar somente com o que é essencial, que nem o médico neurologista Oliver Sacks, que aos 81 anos descobriu ter poucos meses de vida por conta de um câncer que se expande na velocidade da luz. Oliver decidiu não mais usar seu tempo com notícias, nem política e nem clima. E que isso não é indiferença, mas desapego. "Estes problemas já não me pertencem mais, pertencem ao futuro". 

Há de chegar esse dia - em um contexto mais saudável, espero - que não temeremos o tempo, e viveremos o que tiver de ser vivido desapegados dessa fardo que se torna a idade no bolo de aniversário das pessoas. Chegará esse tempo em que poderemos caminhar junto com ele, com todas as suas idiossincrasias, como bons e novos amigos, porque eles nunca mais serão velhos.

Porque velho, baby, velho é só o mundo.
E como todo idoso, ele há de um dia a tudo e a todos docemente esquecer.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Nescau, amor e carnaval.

Carnaval ela pula. Na cama e acorda só na hora de dormir.
Carnaval ela bebe. Nescau, açaí, suco de bacuri e muita, muita água.
Carnaval ela se acaba. E se começa.
Carnaval ela dá. Risos.
Carnaval ela se joga. Na rede desafinando o violão.
Carnaval ela pira. Em filmes que não fazia ideia que eram tão bons.
Carnaval ela corre. Pela cidade fantasma, até a praça, na chuva.
Carnaval ela canta. Aqueles sertanejos antigos vergonhosamente apaixonantes.
Carnaval ela suspira. Lendo certas mensagens alegóricas.
Carnaval ela fantasia. Mil histórias, mil estradas.
Carnaval ela só odeia,
porque Carnaval acaba.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cabe

Parei para olhar o céu hoje de manhã enquanto corria.
Hoje em dia é tão fácil não olhar.
Fica todo mundo passando de um lado pro outro e os semáforos hipnotizam.
Parece que perdemos o medo de não ir para lá.
Mas, eu olhei bem para o céu hoje e meu Deus! como é enorme.
Se cabe o mundo todo dentro do céu,
por que diabos haveria de dentro do céu não caber todo mundo?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Pichações e amarelinha

Então, escrevo.

Escrevo para lembrar das pichações engraçadas em alguns muros da cidade, do jardim da primeira casa da vovó, do papagaio que só sabia falar prego e Portugal, da luz do sol entrando em technicolor pela janela daquela pousadinha surreal em Ajuruteua, de todas as férias, da liberdade de poder usar tênis e vestido ao mesmo tempo, do Ricco dormindo de barriga para cima na frente da porta, me matando de dó, me fazendo pular a janela para poder sair e do Pooky assistindo TV como se estivesse entendendo tudo. Essas coisas eu tenho medo de esquecer. Então, escrevo.

Escrevo porque é quando consigo me calar. Alone, na solidão perfeita que, pensando bem, não é tão ruim assim. Olho a barrinha de texto piscando no Word e me concentro em alguma música que eu elegi minha sem ser, em alguma língua que eu quero falar, naquelas risadas predestinadas, em algum amor que eu ainda quero amar. Na vontade de jogar tudo pro alto e tentar o novo. De novo.

Descrevo um chalé rodeado de árvores no fim de semana, calça xadrez, bolinhos de chuva e confiança. Uma necessidade completa de apenas os pés na água e a praia como companhia. Um andar compassado com um tempo que não saiba o que é pressa. Pequenos segredos abertos somente com a minha chave. Me imagino saindo de um quarto com flor amarela no vaso porque eu adoro amarelo, revista de ciências na cabeceira, caneca de café encostada no pé da cadeira, um computador, vitrô com batente de madeira, uma pilha de livros que ainda vou entender porque comprei e não li, indo virar o vinil, pulando amarelinha num chão de paralelepípedos. Aquela gostosa sensação de que valeu a pena.

Escrevo e só. Para lembrar que estamos todos improvisando e que o medo sempre caminha conosco. Porque virá o dia em que as coisas farão sentido. e chegarão pessoas novas, e quem sabe eu poderei confiar nelas porque não terá perigo. O tempo em que não precisarei escutar minhas grandes tragédias, sustos, desesperos, lágrimas e deusmelivre. O dia em que não saberei que horas são, meu Deus, o anúncio tem que ir pro jornal hoje! e quanto é mesmo o teto que eu não ganho? Ah, dane-se. Essas coisas matam a gente aos poucos.

Escrevo para lembrar que a minha vida daria um livro que ninguém gostaria de ler, mas que teria capa colorida igual a alguma pichação engraçada que eu vi na cidade. E disso eu tenho uns amigos que iam gostar.




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Noite clara

Insônia serve mesmo pra gente se contorcer na cama e bagunçar a nossa estante mental. Essa noite foi assim, bem clara. Tão clara que, de repente, plim, enxerguei tudo.

É mais ou menos assim: quando se vive emparedada entre horários, reuniões e outros compromissos com muito sono no meio, não dá tempo de ver o que a gente tá fazendo. Não dá tempo de ver se magoou ou fez alguém feliz. De ver o que está comendo, o que está vestindo, onde está pisando. E assim, sem pai nem mãe, a pessoa é capaz de achar que está tudo certo porque não tem censura, não tem limite, nem ninguém pra dizer “ei, que grosseria!” ou “ei, você tá muito elétrica, menina!” ou “ei, senta aqui que hoje nem te vi direito”, porque se não me incomoda e ninguém fala, pra mim tá tudo certo.

Começo a querer gente pra todo dia, tipo pai e mãe, que nunca são visitas. Minhas defesas vão ruindo e revelando a maravilha de uma rotina com gente que não me dê o trabalho de me apresentar do zero, que me conheça mesmo e não tenha vergonha de me pedir pra baixar a bola, alongar o pavio e calar a boca quando eu começar a atropelar as palavras. Coisas que passam batido, porque, tirando os velhos amigos que já perderam o respeito, ninguém fala. E como pra mim está sempre tudo bem, as coisas vão indo assim, meio de qualquer jeito. Aí pensei que, nossa! essa função é ótima pra quem se importa o suficiente com você, e pode ser o contraponto que te impede de ficar insuportável, porque requer amar, suportar e segurar, sem precisar ser perfeito ou dono de toda a verdade do mundo, e que só dá pra ter isso com quem é amigo, muito amigo.

Mas esse foi um clarão que me acordou três da manhã e não vale a pena continuar porque já são quase seis e eu preciso me devolver pra estante.