Insônia serve mesmo pra gente se contorcer na cama e bagunçar a nossa estante mental. Essa noite foi assim, bem clara. Tão clara que, de repente, plim, enxerguei tudo.
É mais ou
menos assim: quando se vive emparedada entre horários, reuniões e outros
compromissos com muito sono no meio, não dá tempo de ver o que a gente tá
fazendo. Não dá tempo de ver se magoou ou fez alguém feliz. De ver o que está
comendo, o que está vestindo, onde está pisando. E assim, sem pai nem mãe, a
pessoa é capaz de achar que está tudo certo porque não tem censura, não tem
limite, nem ninguém pra dizer “ei, que grosseria!” ou “ei, você tá muito
elétrica, menina!” ou “ei, senta aqui que hoje nem te vi direito”, porque se
não me incomoda e ninguém fala, pra mim tá tudo certo.
Começo a querer gente pra todo dia, tipo pai e mãe, que nunca são visitas. Minhas defesas vão ruindo e revelando a maravilha de uma rotina com gente que não me dê o trabalho de me apresentar do zero, que me conheça mesmo e não tenha vergonha de me pedir pra baixar a bola, alongar o pavio e calar a boca quando eu começar a atropelar as palavras. Coisas que passam batido, porque, tirando os velhos amigos que já perderam o respeito, ninguém fala. E como pra mim está sempre tudo bem, as coisas vão indo assim, meio de qualquer jeito. Aí pensei que, nossa! essa função é ótima pra quem se importa o suficiente com você, e pode ser o contraponto que te impede de ficar insuportável, porque requer amar, suportar e segurar, sem precisar ser perfeito ou dono de toda a verdade do mundo, e que só dá pra ter isso com quem é amigo, muito amigo.
Mas esse
foi um clarão que me acordou três da manhã e não vale a pena
continuar porque já são quase seis e eu preciso me devolver pra estante.