sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Medo do tempo

Todo mundo é impotente diante dele. Não conheço meia pessoa que já o tenha conseguido enganar. Ele é assim, experiente, esperto, macaco. Cheio de vantagens sobre nós, meras vias de mão única, por onde ele só passa e nunca volta, Não há como desviá-lo, confundi-lo, burlá-lo. Como eu disse, ele é esperto.

Às vezes, me pergunto se ele, enquanto algo tão óbvio, justamente por ser tão óbvio, existe apenas enquanto ideia óbvia. Que nem a coisa do óbvio utópico que existe, mas não existe. Intrigante. Queria poder ignorá-lo e me preocupar somente com o que é essencial, que nem o médico neurologista Oliver Sacks, que aos 81 anos descobriu ter poucos meses de vida por conta de um câncer que se expande na velocidade da luz. Oliver decidiu não mais usar seu tempo com notícias, nem política e nem clima. E que isso não é indiferença, mas desapego. "Estes problemas já não me pertencem mais, pertencem ao futuro". 

Há de chegar esse dia - em um contexto mais saudável, espero - que não temeremos o tempo, e viveremos o que tiver de ser vivido desapegados dessa fardo que se torna a idade no bolo de aniversário das pessoas. Chegará esse tempo em que poderemos caminhar junto com ele, com todas as suas idiossincrasias, como bons e novos amigos, porque eles nunca mais serão velhos.

Porque velho, baby, velho é só o mundo.
E como todo idoso, ele há de um dia a tudo e a todos docemente esquecer.