quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Pichações e amarelinha

Então, escrevo.

Escrevo para lembrar das pichações engraçadas em alguns muros da cidade, do jardim da primeira casa da vovó, do papagaio que só sabia falar prego e Portugal, da luz do sol entrando em technicolor pela janela daquela pousadinha surreal em Ajuruteua, de todas as férias, da liberdade de poder usar tênis e vestido ao mesmo tempo, do Ricco dormindo de barriga para cima na frente da porta, me matando de dó, me fazendo pular a janela para poder sair e do Pooky assistindo TV como se estivesse entendendo tudo. Essas coisas eu tenho medo de esquecer. Então, escrevo.

Escrevo porque é quando consigo me calar. Alone, na solidão perfeita que, pensando bem, não é tão ruim assim. Olho a barrinha de texto piscando no Word e me concentro em alguma música que eu elegi minha sem ser, em alguma língua que eu quero falar, naquelas risadas predestinadas, em algum amor que eu ainda quero amar. Na vontade de jogar tudo pro alto e tentar o novo. De novo.

Descrevo um chalé rodeado de árvores no fim de semana, calça xadrez, bolinhos de chuva e confiança. Uma necessidade completa de apenas os pés na água e a praia como companhia. Um andar compassado com um tempo que não saiba o que é pressa. Pequenos segredos abertos somente com a minha chave. Me imagino saindo de um quarto com flor amarela no vaso porque eu adoro amarelo, revista de ciências na cabeceira, caneca de café encostada no pé da cadeira, um computador, vitrô com batente de madeira, uma pilha de livros que ainda vou entender porque comprei e não li, indo virar o vinil, pulando amarelinha num chão de paralelepípedos. Aquela gostosa sensação de que valeu a pena.

Escrevo e só. Para lembrar que estamos todos improvisando e que o medo sempre caminha conosco. Porque virá o dia em que as coisas farão sentido. e chegarão pessoas novas, e quem sabe eu poderei confiar nelas porque não terá perigo. O tempo em que não precisarei escutar minhas grandes tragédias, sustos, desesperos, lágrimas e deusmelivre. O dia em que não saberei que horas são, meu Deus, o anúncio tem que ir pro jornal hoje! e quanto é mesmo o teto que eu não ganho? Ah, dane-se. Essas coisas matam a gente aos poucos.

Escrevo para lembrar que a minha vida daria um livro que ninguém gostaria de ler, mas que teria capa colorida igual a alguma pichação engraçada que eu vi na cidade. E disso eu tenho uns amigos que iam gostar.