Andei calada hoje. Até me perguntam se era tristeza ou
alguma coisa congênere. Não sei. Simplesmente esses dias eu meio que fiquei sem
saber direito o que dizer. Logo eu, tão viciada em classificar para sentir. Mas
continuo gostando conversar com qualquer um. Acho que finalmemente aprendi a ter começo, meio e fim; concluir meus pensamentos atropelativos. O word sempre grifa essa palavra de vermelho. Acho que não
existe, haha. Aprendi
gírias e músicas novas. Tô aprendendo francês sozinha, pela internet. Até agora
só sei cantar Le Festin, da Camille, o que tornou aquela cena que as coisas
mudam de configuração em Ratatouille ainda mais especial pra mim. Sinto mais
segurança pra defender meu ponto de vista e urgência nenhuma em converter os
das outras pessoas a ele. Passei a me colocar mais no lugar dos outros e sinto
tanto amor pelas pequenas felicidades que meu coração dói. Não sinto mais tanta
vontade de me vestir de papel de presente pra ir ali no bar ver se te vejo. Uma
bermuda, uma blusa solta e bom humor me bastam. Eu sou eu, tu és tu. Se por
acaso nos encontrarmos, lindo. Se não, não há o que fazer. Perco minha cabeça,
encontro minha razão. Calma. Tudo está em calma. Todos já temos o que
estamos buscando.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Meu querido Frodo
Acho que aquela mendiga entrou aqui. Devo ter deixado a porta aberta, ou ela se escondeu dentro
de algum boleto e acampou na minha gaveta de prioridades. Sinto como se ela massageasse cada pedacinho do meu
corpo, como se ela deitasse em cima de mim e, de tão pesada, não me deixa
levantar quando o celular desperta. Sinto como se ela soprasse minha comida,
fazendo-a esfriar antes do que deveria. Às vezes, ela aperta minha cabeça
e me deixa a tarde inteira com enxaqueca. Um dia desses, ela me pediu uma esmola e eu neguei. Eu tive
que negar porque o que ela me pediu eu não tenho pra dar. Ela me pediu tempo. Pediu pra eu parar um pouco a correria de todo dia e cuidar dela que ela
tava precisando de atenção. Mas é que, que inferno!, ela me atrapalha tanto que o único tempo que me
resta, eu só consigo usar pra recuperar os prejuízos que ela me dá. Olha, confusa da cabeça eu sempre fui, eu sei. Mas eu andei tão consciente de uns tempos pra cá, sabe? Me sinto lúcida como se fosse morrer. E fria. E frio. Sinto tanto frio que às vezes em pleno sol de meio-dia, me pego andando na rua de cardigã. Devem achar eu eu fiquei maluca. Devem ter razão.
Ontem, eu saí pra correr à noite (tenho feito isso
pra poder chorar em paz), e vi um cachorro comendo restos de despacho do lado
do cemitério. Ele havia perdido uma orelha. Eu olhei praquela cena e vi a
dor estampada no olhos dele, cada movimento da
mandíbula mastigando fazia-no soltar pequenos chorinhos e se tremer todo.
Eu deveria ter desabado ali, ter entrado em desespero pra ajudar aquele
cachorro, mas eu senti uma serenidade tão grande, tão grande. De uma forma estranha, eu sabia que nada que eu
fizesse iria reconstruir uma orelha, ou reverter a infecção, e que aquele
cachorro era uma questão de Deus e que Deus sabe todas as coisas. Segui a
corrida rezando pra ele morrer logo e ir pro céu pros anjos cuidarem dele. Eu segui, mas não conseguia parar de pensar naquele cão, imaginando o que tão de ruim ele
fez pra ter perdido a orelha. Foi quando me dei conta do quão indiferente eu fui àquele encontro que eu desabei. Porque é exatamente o que tô
fazendo com a minha vida e as pessoas. Tô indiferente a todos os abismos e mazelas
humanas possíveis, deixando pra lá problemas dos outros e sobrecarregando
Deus com todos eles, mais os meus.
A verdade é que no final das contas, eu não tenho uma
coisa pra realmente chamar de problema. Eu tenho saúde (não muito a mental, é bem verdade), mas sou absurdamente feliz com pequenas gentilezas, jogo limpo com as pessoas, meus pais me amam, meu cachorro adora me ver, tenho
amigos fantásticos, reconhecimento profissional, bebo quando quero e meus boletos estão todos em dia. Mas eu sei que há alguma coisa errada comigo, e eu sei que é ela, a tal mendiga. Olho pra essas coisas na minha vida que estão todas certas e não consigo entender, não consigo entender o que ela quer logo comigo! Sempre ouvi dizer que depressão é coisa de gente triste, mas, meu Deus, o que me explica? Eu vivo rindo, todo mundo sabe. Eu morro de rir que qualquer coisa que pra mim tenha muita graça. Uma vez eu li que um sorriso é luz. Mas até a luz tem seu espectro traiçoeiro. Olha os mosquitos que morrem queimados nas lâmpadas. Olha os peixes que são devorados poe aqueles outros fluorescentes nas zonas abissais do mar. Deve ser o contraponto, Se há luz, também há treva.
Quero que ela pare. Já dei a ela tudo que não podia dar.
Quero que ela saia. Antes que eu me acostume com ela ficar.
Saudade.
E socorro.
terça-feira, 23 de junho de 2015
The Cardigans
Tocou for what it's worth no rádio hoje e ela perguntou por ti. E aquele cara, hein? Que fim levou?.
De tudo, o mais difícil agora é contar a história. No
começo, não. No começo eram piores os domingos à tarde, os sábados à noite, a casa
vazia, o telefone sem tocar. Era lembrar de você você lendo o livro do
Marley durante o dia inteiro, e de não entender, de verdade, como seria
possível viver sem ter isso todos os dias. No começo eu só deitava na
pontinha da cama, deixando espaço pra um você. Sentia toda a sua ausência como
se ela fosse uma pessoa. Um pouco depois, parecia que eu conseguia ouvir você
me dizendo isso ou aquilo; eu tentava imaginar se você tinha engordado, e bem
lá dentro eu sabia que você devia pensar em mim de vez em quando, como se eu fosse mesmo tão especial que.
No começo, havia o que era só nosso. Os nossos segredos, aquele programa que só a gente fazia no domingo. No começo, eu sentia a distância como um febre; e no começo, apesar de eu ter partido, e você também, você era em mim e eu era em você. Na dedicatória do livro que só eu entendia, nas memórias que só faziam sentido na primeira pessoa do plural. No começo, era a falta e todos os nossos lugares sagrados. No começo, era o não você, e no começo era o não saber, era o não estar que deixavam os dias longos e as noites mais compridas ainda, mas era só. De alguma maneira você estava lá. Mesmo não estando.
No começo, havia o que era só nosso. Os nossos segredos, aquele programa que só a gente fazia no domingo. No começo, eu sentia a distância como um febre; e no começo, apesar de eu ter partido, e você também, você era em mim e eu era em você. Na dedicatória do livro que só eu entendia, nas memórias que só faziam sentido na primeira pessoa do plural. No começo, era a falta e todos os nossos lugares sagrados. No começo, era o não você, e no começo era o não saber, era o não estar que deixavam os dias longos e as noites mais compridas ainda, mas era só. De alguma maneira você estava lá. Mesmo não estando.
Depois do começo, o que se perdeu primeiro foi a sua voz.
Depois seu cheiro. Depois foi seu jeito marrento de andar que eu fui esquecendo,
até não lembrar mais. Foi aí que eu comecei a inventar notícias sobre você, as
que eu esperava te ouvir contando, que eram nossas, muito, muito tempo depois de
terem acontecido, e foi como se eu perdesse o seu rosto. Perderam a graça as
notícias dadas pelo não-você. Lembrei do seu jeito de não telefonar, e de tudo
que você tinha me falado na hora errada.
Primeiro foi o não te ver e depois foi o não te reconhecer.
Não entender porque você me tratava como estranha, zero intimidade, zero
conversa genérica de internet. Não entender como de uma hora pra outra puffff,
todas aquelas coisas que conversávamos tinham desaparecido e você não tinha
mais nada a ver com aqueles problemas, eu, hein?, tudo novo,
agora a vida mudou. Cena de videoclipe: você
ali no Alasca,
corta, o cenário agora é um quarto de hotel, e depois um bote, uma corrida de kart,
corta pra apoteose de um teatro e um celular se espatifando no chão.
De tudo, eu acho que o mais difícil agora é contar a
história. Saudade eu não tive nunca mais. E quando tinha, não era de você.
Observo nossos segredos e fico confusa. Acho que eles eram só meus. Primeira
pessoa do singular, isso sim. E todas as músicas, memórias, tudo, tudo está
bagunçado, fora do lugar. Como quando entram de sapato na casa de um japonês
velhinho, como a bomba que o sérvios jogaram bem em cima da biblioteca
muçulmana no centro de Sarajevo, como se profanassem todos os lugares intocados
e inocentes do mundo, como sacolinha descartável indo na correnteza, como pagar
a conta do restaurante, como me dá dois, cinquenta reais, ok, opa, desculpa,
acabou, volta outro dia, hoje não tem. Como um delírio, uma febre, uma coisa
que aconteceu but
not quite, um caderno de anotações cheio de lembretes que não fazem sentido
algum.
Voltei pra mim a tempo de corrigir rapidamente, levamos, e, antes de aumentar o volume pra cortar o assunto e a música não perguntar mais nada, respondi menina,
sabe que eu não sei?
terça-feira, 9 de junho de 2015
Perspectivas
Tudo tem três lados.
O meu. O seu.
E o verdadeiro.
Tudo é relativo.
Um fio de cabelo na cabeça é pouco.
Na sopa é muito.
Tudo é passageiro.
Tudo é sempre pra melhor.
Nada é tão ruim que a gente não possa melhorar.
Então, desencana.
Só não vai ser,
o que não tiver que.
O meu. O seu.
E o verdadeiro.
Tudo é relativo.
Um fio de cabelo na cabeça é pouco.
Na sopa é muito.
Tudo é passageiro.
Tudo é sempre pra melhor.
Nada é tão ruim que a gente não possa melhorar.
Então, desencana.
Só não vai ser,
o que não tiver que.
quinta-feira, 30 de abril de 2015
Quando chove dentro da gente
Às vezes, a gente não se molha na chuva de fora. Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas existe uma chuva que só chove dentro da gente. Ela chega forte, alaga nossas entranhas sem sequer uma mísera gota atingir a superfície da nossa pele. Quando chove dentro da gente, a alma fria se aquece como um daqueles mecanismos de arrefecimento que ninguém precisa ligar pra funcionar, inteligentes que nem a gente não é. A gente é muito burro. Vai ver é por isso que às vezes chove dentro da gente. E vai molhando as nossas dúvidas, limpando a nossa essência, arrastando violentamente nossos pilares ocos, deixando a ver navios aquelas certezas encostadas. Depois que esse tipo de chuva passa, a gente ouve um vinil bem antigo na casa da Felícia e vai tentando não cair no abismo entre as palavras velho e cansado. Certas chuvas chovem dentro da gente quando a gente chora. Eu descobri isso um dia desses quando eu, chorando, fechei meus olhos e os revirei na própria órbita. Foi a primeira vez que eu vi como é lindo, como é lindo quando chove dentro da gente.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Vive ou vaza
Não me queria tão amarga esses dias. Me queria como sempre encantada, apaixonada, esquisita. O fato é que depois que a gente aprende que a tomada dá choque, a gente evita até a parede. A gente vai atar a rede em outro lugar.
Descobri em mim um tipo de alarme de abismos, uma coisa que eu ainda não sei exatamente quando começou, mas que vem me desviando de uns e outros perrengues sentimentais. É algo que me inquieta quando tem alguma coisa errada, coisa que, na maioria das vezes, eu ainda nem sei se vai dar errado, mas que só pelo fato de estar incerta, já deu.
Quem dera que a gente pudesse acessar o amanhã e catalogar o que presta e o que não presta, quem vale a pena e quem não. A verdade é que ninguém deveria valer a pena, porque pena é uma coisa ruim pela qual não deveríamos passar. O certo seria a gente só se envolver quando o alarme de abismo não disparasse, quando a nossa alma meio que escaneasse a outra e não houvesse perigo. Mas, sabemos que não pode ser feito dessa forma. Há que se tomar o choque para então passar a evitar a tomada, ou, no meu caso, a parede toda.
A única coisa que eu sei é que de ontem em diante, eu não quero mais andar ao lado de quem anda mais rápido do que eu, ou de gente que desacelera do nada e não avisa. Tá proibido abandonar pelo caminho. Ou segue comigo e vive, ou dobra na primeira esquina e vaza.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Medo do tempo
Todo mundo é impotente diante dele. Não conheço meia pessoa que já o tenha conseguido enganar. Ele é assim, experiente, esperto, macaco. Cheio de vantagens sobre nós, meras vias de mão única, por onde ele só passa e nunca volta, Não há como desviá-lo, confundi-lo, burlá-lo. Como eu disse, ele é esperto.
Às vezes, me pergunto se ele, enquanto algo tão óbvio, justamente por ser tão óbvio, existe apenas enquanto ideia óbvia. Que nem a coisa do óbvio utópico que existe, mas não existe. Intrigante. Queria poder ignorá-lo e me preocupar somente com o que é essencial, que nem o médico neurologista Oliver Sacks, que aos 81 anos descobriu ter poucos meses de vida por conta de um câncer que se expande na velocidade da luz. Oliver decidiu não mais usar seu tempo com notícias, nem política e nem clima. E que isso não é indiferença, mas desapego. "Estes problemas já não me pertencem mais, pertencem ao futuro".
Há de chegar esse dia - em um contexto mais saudável, espero - que não temeremos o tempo, e viveremos o que tiver de ser vivido desapegados dessa fardo que se torna a idade no bolo de aniversário das pessoas. Chegará esse tempo em que poderemos caminhar junto com ele, com todas as suas idiossincrasias, como bons e novos amigos, porque eles nunca mais serão velhos.
Porque velho, baby, velho é só o mundo.
E como todo idoso, ele há de um dia a tudo e a todos docemente esquecer.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Nescau, amor e carnaval.
Carnaval ela pula. Na cama e acorda só na hora de dormir.
Carnaval ela bebe. Nescau, açaí, suco de bacuri e muita, muita água.
Carnaval ela se acaba. E se começa.
Carnaval ela dá. Risos.
Carnaval ela se joga. Na rede desafinando o violão.
Carnaval ela pira. Em filmes que não fazia ideia que eram tão bons.
Carnaval ela corre. Pela cidade fantasma, até a praça, na chuva.
Carnaval ela canta. Aqueles sertanejos antigos vergonhosamente apaixonantes.
Carnaval ela suspira. Lendo certas mensagens alegóricas.
Carnaval ela fantasia. Mil histórias, mil estradas.
Carnaval ela só odeia,
Carnaval ela só odeia,
porque Carnaval acaba.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
Cabe
Parei para olhar o céu hoje de manhã enquanto corria.
Hoje em dia é tão fácil não olhar.
Fica todo mundo passando de um lado pro outro e os semáforos hipnotizam.
Parece que perdemos o medo de não ir para lá.
Mas, eu olhei bem para o céu hoje e meu Deus! como é enorme.
Se cabe o mundo todo dentro do céu,
por que diabos haveria de dentro do céu não caber todo mundo?
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Pichações e amarelinha
Então, escrevo.
Escrevo para lembrar das pichações engraçadas em alguns muros da cidade, do jardim da primeira casa da vovó, do papagaio que só sabia falar prego e Portugal, da luz do sol entrando em technicolor pela janela daquela pousadinha surreal em Ajuruteua, de todas as férias, da liberdade de poder usar tênis e vestido ao mesmo tempo, do Ricco dormindo de barriga para cima na frente da porta, me matando de dó, me fazendo pular a janela para poder sair e do Pooky assistindo TV como se estivesse entendendo tudo. Essas coisas eu tenho medo de esquecer. Então, escrevo.
Escrevo porque é quando consigo me calar. Alone, na solidão perfeita que, pensando bem, não é tão ruim assim. Olho a barrinha de texto piscando no Word e me concentro em alguma música que eu elegi minha sem ser, em alguma língua que eu quero falar, naquelas risadas predestinadas, em algum amor que eu ainda quero amar. Na vontade de jogar tudo pro alto e tentar o novo. De novo.
Descrevo um chalé rodeado de árvores no fim de semana, calça xadrez, bolinhos de chuva e confiança. Uma necessidade completa de apenas os pés na água e a praia como companhia. Um andar compassado com um tempo que não saiba o que é pressa. Pequenos segredos abertos somente com a minha chave. Me imagino saindo de um quarto com flor amarela no vaso porque eu adoro amarelo, revista de ciências na cabeceira, caneca de café encostada no pé da cadeira, um computador, vitrô com batente de madeira, uma pilha de livros que ainda vou entender porque comprei e não li, indo virar o vinil, pulando amarelinha num chão de paralelepípedos. Aquela gostosa sensação de que valeu a pena.
Escrevo e só. Para lembrar que estamos todos improvisando e que o medo sempre caminha conosco. Porque virá o dia em que as coisas farão sentido. e chegarão pessoas novas, e quem sabe eu poderei confiar nelas porque não terá perigo. O tempo em que não precisarei escutar minhas grandes tragédias, sustos, desesperos, lágrimas e deusmelivre. O dia em que não saberei que horas são, meu Deus, o anúncio tem que ir pro jornal hoje! e quanto é mesmo o teto que eu não ganho? Ah, dane-se. Essas coisas matam a gente aos poucos.
Escrevo para lembrar que a minha vida daria um livro que ninguém gostaria de ler, mas que teria capa colorida igual a alguma pichação engraçada que eu vi na cidade. E disso eu tenho uns amigos que iam gostar.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Noite clara
Insônia serve mesmo pra gente se contorcer na cama e bagunçar a nossa estante mental. Essa noite foi assim, bem clara. Tão clara que, de repente, plim, enxerguei tudo.
É mais ou
menos assim: quando se vive emparedada entre horários, reuniões e outros
compromissos com muito sono no meio, não dá tempo de ver o que a gente tá
fazendo. Não dá tempo de ver se magoou ou fez alguém feliz. De ver o que está
comendo, o que está vestindo, onde está pisando. E assim, sem pai nem mãe, a
pessoa é capaz de achar que está tudo certo porque não tem censura, não tem
limite, nem ninguém pra dizer “ei, que grosseria!” ou “ei, você tá muito
elétrica, menina!” ou “ei, senta aqui que hoje nem te vi direito”, porque se
não me incomoda e ninguém fala, pra mim tá tudo certo.
Começo a querer gente pra todo dia, tipo pai e mãe, que nunca são visitas. Minhas defesas vão ruindo e revelando a maravilha de uma rotina com gente que não me dê o trabalho de me apresentar do zero, que me conheça mesmo e não tenha vergonha de me pedir pra baixar a bola, alongar o pavio e calar a boca quando eu começar a atropelar as palavras. Coisas que passam batido, porque, tirando os velhos amigos que já perderam o respeito, ninguém fala. E como pra mim está sempre tudo bem, as coisas vão indo assim, meio de qualquer jeito. Aí pensei que, nossa! essa função é ótima pra quem se importa o suficiente com você, e pode ser o contraponto que te impede de ficar insuportável, porque requer amar, suportar e segurar, sem precisar ser perfeito ou dono de toda a verdade do mundo, e que só dá pra ter isso com quem é amigo, muito amigo.
Mas esse
foi um clarão que me acordou três da manhã e não vale a pena
continuar porque já são quase seis e eu preciso me devolver pra estante.
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