quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Mais do que deveria

Eu gosto de escrever quando todo mundo está dormindo. Eu ajusto a luz da tela para ficar bem fraca e tomo uma tigela de açaí. Por conta do efeito, eu sinto preguiça de manhã. Todas as manhãs foram feitas pra dormir. Por que as noites duram menos do que deveriam?

Eu gosto mais de tropicália do que de bossa nova. Gosto mais dos cachorros do que dos gatos, mas eu queria ter os dois em casa. Cachorros são mais legais, gatos são mais engraçados. Eu odeio Beatles e sinto mágoa dos Rolling Stones. Eu tenho mágoa da Yoko. Eu queria ter cabelo comprido, mas quando meu cabelo vai crescendo, eu vou ficando enjoada e corto logo. Me agonia cabelo que cresce mais do que deveria.

Gosto mais de vestido do que de jeans, só que mais de tênis do que de saltos. Mais de nescau do que de café. Mais de salgado do que de doce. Prefiro vinho, depois cerveja. Não me dou bem com os destilados, de modo geral, tequilas me fazem hahahahahahahaahahahaha. Gosto da casa dos meus amigos, mas depois de um tempo me dá preguiça de ir. Eu gosto de viajar pra longe, muito longe, mas depois de um tempo me dá preguiça. Algumas distâncias duram mais do que deveriam.

Eu ando rápido, nunca desvio de ninguém e dificilmente vejo alguma pessoa na rua. É que os carros tiram a minha atenção. Acho bom quando tem muitos carros passando e a cidade está em obras e é barulhenta. Acho bom quando a casa está cheia e as pessoas ficam falando muito. Eu gosto das pessoas assim, bem bagunçadas. Às vezes, eu sou uma visita que fica mais do que deveria.

O silêncio é bom quando escurece. A melhor hora é quando o dia vai virando noite, e não dá pra saber quando termina um e quando começa o outro. A lua é mais bonita do que o sol. As estrelas são supremas. O céu é  irreal. Deveria ser ao contrário. A gente pisar nas nuvens e ficar olhando a terra de longe, longe, mais longe do que deveria.

Eu falo muito, mas eu gosto de ouvir histórias. Eu gosto de saber qual a cor preferida dos meus amigos. Eu gosto de ter intimidade, mas acho difícil encontrar pessoas para reparti-la. É que não entendo as pessoas. De repente, o que era para ser simples, fica difícil e me pergunto se não nos tornamos complexos demais e sinceros de menos. Tenho preguiça de quem se complica mais do que deveria.

Não gosto de jogos, fingimentos, hipocrisia. Não entendo passar vontades, ir embora quando se quer ficar. Não tolero, simplesmente não tolero perdas de tempo. Quem perde tempo, indubitavelmente se perde. E tem que ser muito preguiçoso para se perder. Mas me tornei preguiçosa, confesso. Tenho todas as preguiças. De acordar, de atender ao telefone, de me arrumar na sexta à noite, de pensar, de existir, de respirar, de jantar, de dormir, de entender. E de amar. Me dá preguiça quando vejo que já amei demais e nunca foi amor. Mas parecia. E só de parecer, cansou. Tenho preguiça do que parece mais do que deveria.

Minhas bolsas são pesadas, com livros que eu nunca leio mas que carrego pra cima e pra baixo. Eu gosto de agendas grandes também, pra caber tudo que eu tenho que esquecer de fazer. Eu queria poder não esquecer de nada, de nenhum compromisso, de nenhum pensamento, de nada marcante que possa ter acontecido. Se eu pudesse eu teria uma agenda que contaria tudo de mim até o final do ano, mas eu tenho preguiça dessa coisa de escrever tudo, todo dia, tanto que acabei de sentir preguiça dessa conversa demorada, durando mais do que deveria.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Alameda

Ninguém partiu meu coração. Ninguém nunca nem por um segundo sequer tocou nele.  Eu mesma o parti. Qualquer estrago que você descobriu quando conseguiu espiá-lo pela fresta do meu sorriso, foi feito por mim. Apenas saiba disso.

Quando você tocou a campainha, dei um jeito de tirar a poeira das minhas lágrimas e escondi minhas inseguranças num vasinho amarelo ao lado da foto que tiramos deitados na praia, dividindo fones de ouvido. Escondi minha bagunça sentimental para um cantinho que a sua visão não alcançava. Arredei para a beira da cama a pilha caótica de emoções que acumulei durante anos e sempre tive preguiça de dobrar e agasalhar nas gavetas certas. Fiz isso para que sobrasse uma pontinha de cama para você um dia sentar. Ficou até confortável dentro. Só que ficou desconfortável fora. 

Foi quando parti meu coração. Na noite em que desceríamos aquela alameda que sempre descíamos juntos, porque eu tinha medo que as casas ganhassem vida e me espremessem, ou que as poças d’água virassem pessoas e me arrastassem pelos pés para outra dimensão. Tinha alguma coisa errada ali e não era a minha imaginação. O errado ali era o não-você. Olhei para trás o vi parado no começo da ladeira que naquela noite você não desceu. Olhei você de baixo para cima e a ladeira que nos separava pareceu uma estrada de milhares de quilômetros. Eu entendi, mas não soube o que dizer. Você sabia como me acompanhar. “Não consigo te abrir”. O sentido veio para mim como um clarão.

Naquela noite, atravessei a alameda sozinha, sangrei a ponta dos dedos em algumas paredes, chutei poças d’água e pulei em todas as pessoas impossíveis nelas. Quando olhei para trás, tudo no meu coração se bagunçou de novo. Sentei naquela pontinha da cama. Vasinho amarelo quebrado. Tudo vazio. Só você no retrato. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Le Festin

Andei calada hoje. Até me perguntam se era tristeza ou alguma coisa congênere. Não sei. Simplesmente esses dias eu meio que fiquei sem saber direito o que dizer. Logo eu, tão viciada em classificar para sentir. Mas continuo gostando conversar com qualquer um. Acho que finalmemente aprendi a ter começo, meio e fim; concluir meus pensamentos atropelativos. O word sempre grifa essa palavra de vermelho. Acho que não existe, haha. Aprendi gírias e músicas novas. Tô aprendendo francês sozinha, pela internet. Até agora só sei cantar Le Festin, da Camille, o que tornou aquela cena que as coisas mudam de configuração em Ratatouille ainda mais especial pra mim. Sinto mais segurança pra defender meu ponto de vista e urgência nenhuma em converter os das outras pessoas a ele. Passei a me colocar mais no lugar dos outros e sinto tanto amor pelas pequenas felicidades que meu coração dói. Não sinto mais tanta vontade de me vestir de papel de presente pra ir ali no bar ver se te vejo. Uma bermuda, uma blusa solta e bom humor me bastam. Eu sou eu, tu és tu. Se por acaso nos encontrarmos, lindo. Se não, não há o que fazer. Perco minha cabeça, encontro minha razão. Calma. Tudo está em calma. Todos já temos o que estamos buscando.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Meu querido Frodo

Acho que aquela mendiga entrou aqui. Devo ter deixado a porta aberta, ou ela se escondeu dentro de algum boleto e acampou na minha gaveta de prioridades. Sinto como se ela massageasse cada pedacinho do meu corpo, como se ela deitasse em cima de mim e, de tão pesada, não me deixa levantar quando o celular desperta. Sinto como se ela soprasse minha comida, fazendo-a esfriar antes do que deveria. Às vezes, ela aperta minha cabeça e me deixa a tarde inteira com enxaqueca. Um dia desses, ela me pediu uma esmola e eu neguei. Eu tive que negar porque o que ela me pediu eu não tenho pra dar. Ela me pediu tempo. Pediu pra eu parar um pouco a correria de todo dia e cuidar dela que ela tava precisando de atenção. Mas é que, que inferno!, ela me atrapalha tanto que o único tempo que me resta, eu só consigo usar pra recuperar os prejuízos que ela me dá. Olha, confusa da cabeça eu sempre fui, eu sei. Mas eu andei tão consciente de uns tempos pra cá, sabe? Me sinto lúcida como se fosse morrer. E fria. E frio. Sinto tanto frio que às vezes em pleno sol de meio-dia, me pego andando na rua de cardigã. Devem achar eu eu fiquei maluca. Devem ter razão.

Ontem, eu saí pra correr à noite (tenho feito isso pra poder chorar em paz), e vi um cachorro comendo restos de despacho do lado do cemitério. Ele havia perdido uma orelha. Eu olhei praquela cena e vi a dor estampada no olhos dele, cada movimento da mandíbula mastigando fazia-no soltar pequenos chorinhos e se tremer todo. Eu deveria ter desabado ali, ter entrado em desespero pra ajudar aquele cachorro, mas eu senti uma serenidade tão grande, tão grande. De uma forma estranha, eu sabia que nada que eu fizesse iria reconstruir uma orelha, ou reverter a infecção, e que aquele cachorro era uma questão de Deus e que Deus sabe todas as coisas. Segui a corrida rezando pra ele morrer logo e ir pro céu pros anjos cuidarem dele. Eu segui, mas não conseguia parar de pensar naquele cão, imaginando o que tão de ruim ele fez pra ter perdido a orelha. Foi quando me dei conta do quão indiferente eu fui àquele encontro que eu desabei. Porque é exatamente o que tô fazendo com a minha vida e as pessoas. Tô indiferente a todos os abismos e mazelas humanas possíveis, deixando pra lá problemas dos outros e sobrecarregando Deus com todos eles, mais os meus.

A verdade é que no final das contas, eu não tenho uma coisa pra realmente chamar de problema. Eu tenho saúde (não muito a mental, é bem verdade), mas sou absurdamente feliz com pequenas gentilezas, jogo limpo com as pessoas, meus pais me amam, meu cachorro adora me ver, tenho amigos fantásticos, reconhecimento profissional, bebo quando quero e meus boletos estão todos em dia. Mas eu sei que há alguma coisa errada comigo, e eu sei que é ela, a tal mendiga. Olho pra essas coisas na minha vida que estão todas certas e não consigo entender, não consigo entender o que ela quer logo comigo! Sempre ouvi dizer que depressão é coisa de gente triste, mas, meu Deus, o que me explica? Eu vivo rindo, todo mundo sabe. Eu morro de rir que qualquer coisa que pra mim tenha muita graça. Uma vez eu li que um sorriso é luz. Mas até a luz tem seu espectro traiçoeiro. Olha os mosquitos que morrem queimados nas lâmpadas. Olha os peixes que são devorados poe aqueles outros fluorescentes nas zonas abissais do mar. Deve ser o contraponto, Se há luz, também há treva.   

Quero que ela pare. Já dei a ela tudo que não podia dar.
Quero que ela saia. Antes que eu me acostume com ela ficar.

Saudade.
E socorro.

terça-feira, 23 de junho de 2015

The Cardigans

Tocou for what it's worth no rádio hoje e ela perguntou por ti. E aquele cara, hein? Que fim levou?. 

De tudo, o mais difícil agora é contar a história. No começo, não. No começo eram piores os domingos à tarde, os sábados à noite, a casa vazia, o telefone sem tocar. Era lembrar de você você lendo o livro do Marley durante o dia inteiro, e de não entender, de verdade, como seria possível viver sem ter isso todos os dias. No começo eu só deitava na pontinha da cama, deixando espaço pra um você. Sentia toda a sua ausência como se ela fosse uma pessoa. Um pouco depois, parecia que eu conseguia ouvir você me dizendo isso ou aquilo; eu tentava imaginar se você tinha engordado, e bem lá dentro eu sabia que você devia pensar em mim de vez em quando, como se eu fosse mesmo tão especial que.

No começo, havia o que era só nosso. Os nossos segredos, aquele programa que só a gente fazia no domingo. No começo, eu sentia a distância como um febre; e no começo, apesar de eu ter partido, e você também, você era em mim e eu era em você. Na dedicatória do livro que só eu entendia, nas memórias que só faziam sentido na primeira pessoa do plural. No começo, era a falta e todos os nossos lugares sagrados. No começo, era o não você, e no começo era o não saber, era o não estar que deixavam os dias longos e as noites mais compridas ainda, mas era só. De alguma maneira você estava lá. Mesmo não estando.

Depois do começo, o que se perdeu primeiro foi a sua voz. Depois seu cheiro. Depois foi seu jeito marrento de andar que eu fui esquecendo, até não lembrar mais. Foi aí que eu comecei a inventar notícias sobre você, as que eu esperava te ouvir contando, que eram nossas, muito, muito tempo depois de terem acontecido, e foi como se eu perdesse o seu rosto. Perderam a graça as notícias dadas pelo não-você. Lembrei do seu jeito de não telefonar, e de tudo que você tinha me falado na hora errada.

Primeiro foi o não te ver e depois foi o não te reconhecer. Não entender porque você me tratava como estranha, zero intimidade, zero conversa genérica de internet. Não entender como de uma hora pra outra puffff, todas aquelas coisas que conversávamos tinham desaparecido e você não tinha mais nada a ver com aqueles problemas, eu, hein?, tudo novo, agora a vida mudou. Cena de videoclipe: você ali no Alasca, corta, o cenário agora é um quarto de hotel, e depois um bote, uma corrida de kart, corta pra apoteose de um teatro e um celular se espatifando no chão. 

De tudo, eu acho que o mais difícil agora é contar a história. Saudade eu não tive nunca mais. E quando tinha, não era de você. Observo nossos segredos e fico confusa. Acho que eles eram só meus. Primeira pessoa do singular, isso sim. E todas as músicas, memórias, tudo, tudo está bagunçado, fora do lugar. Como quando entram de sapato na casa de um japonês velhinho, como a bomba que o sérvios jogaram bem em cima da biblioteca muçulmana no centro de Sarajevo, como se profanassem todos os lugares intocados e inocentes do mundo, como sacolinha descartável indo na correnteza, como pagar a conta do restaurante, como me dá dois, cinquenta reais, ok, opa, desculpa, acabou, volta outro dia, hoje não tem. Como um delírio, uma febre, uma coisa que aconteceu but not quite, um caderno de anotações cheio de lembretes que não fazem sentido algum.


Voltei pra mim a tempo de corrigir rapidamente, levamos, e, antes de aumentar o volume pra cortar o assunto e a música não perguntar mais nada, respondi menina, sabe que eu não sei?

terça-feira, 9 de junho de 2015

Perspectivas

Tudo tem três lados.
O meu. O seu.
E o verdadeiro.

Tudo é relativo.
Um fio de cabelo na cabeça é pouco.
Na sopa é muito.

Tudo é passageiro.
Tudo é sempre pra melhor.
Nada é tão ruim que a gente não possa melhorar.

Então, desencana.
Só não vai ser,
o que não tiver que.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Quando chove dentro da gente

Às vezes, a gente não se molha na chuva de fora. Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas existe uma chuva que só chove dentro da gente. Ela chega forte, alaga nossas entranhas sem sequer uma mísera gota atingir a superfície da nossa pele. Quando chove dentro da gente, a alma fria se aquece como um daqueles mecanismos de arrefecimento que ninguém precisa ligar pra funcionar, inteligentes que nem a gente não é. A gente é muito burro. Vai ver é por isso que às vezes chove dentro da gente. E vai molhando as nossas dúvidas, limpando a nossa essência, arrastando violentamente nossos pilares ocos, deixando a ver navios aquelas certezas encostadas. Depois que esse tipo de chuva passa, a gente ouve um vinil bem antigo na casa da Felícia e vai tentando não cair no abismo entre as palavras velho e cansado. Certas chuvas chovem dentro da gente quando a gente chora. Eu descobri isso um dia desses quando eu, chorando, fechei meus olhos e os revirei na própria órbita. Foi a primeira vez que eu vi como é lindo, como é lindo quando chove dentro da gente.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Vive ou vaza

Não me queria tão amarga esses dias. Me queria como sempre encantada, apaixonada, esquisita. O fato é que depois que a gente aprende que a tomada dá choque, a gente evita até a parede. A gente vai atar a rede em outro lugar.

Descobri em mim um tipo de alarme de abismos, uma coisa que eu ainda não sei exatamente quando começou, mas que vem me desviando de uns e outros perrengues sentimentais. É algo que me inquieta quando tem alguma coisa errada, coisa que, na maioria das vezes, eu ainda nem sei se vai dar errado, mas que só pelo fato de estar incerta, já deu.

Quem dera que a gente pudesse acessar o amanhã e catalogar o que presta e o que não presta, quem vale a pena e quem não. A verdade é que ninguém deveria valer a pena, porque pena é uma coisa ruim pela qual não deveríamos passar. O certo seria a gente só se envolver quando o alarme de abismo não disparasse, quando a nossa alma meio que escaneasse a outra e não houvesse perigo. Mas, sabemos que não pode ser feito dessa forma. Há que se tomar o choque para então passar a evitar a tomada, ou, no meu caso, a parede toda.

A única coisa que eu sei é que de ontem em diante, eu não quero mais andar ao lado de quem anda mais rápido do que eu, ou de gente que desacelera do nada e não avisa. Tá proibido abandonar pelo caminho. Ou segue comigo e vive, ou dobra na primeira esquina e vaza.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Medo do tempo

Todo mundo é impotente diante dele. Não conheço meia pessoa que já o tenha conseguido enganar. Ele é assim, experiente, esperto, macaco. Cheio de vantagens sobre nós, meras vias de mão única, por onde ele só passa e nunca volta, Não há como desviá-lo, confundi-lo, burlá-lo. Como eu disse, ele é esperto.

Às vezes, me pergunto se ele, enquanto algo tão óbvio, justamente por ser tão óbvio, existe apenas enquanto ideia óbvia. Que nem a coisa do óbvio utópico que existe, mas não existe. Intrigante. Queria poder ignorá-lo e me preocupar somente com o que é essencial, que nem o médico neurologista Oliver Sacks, que aos 81 anos descobriu ter poucos meses de vida por conta de um câncer que se expande na velocidade da luz. Oliver decidiu não mais usar seu tempo com notícias, nem política e nem clima. E que isso não é indiferença, mas desapego. "Estes problemas já não me pertencem mais, pertencem ao futuro". 

Há de chegar esse dia - em um contexto mais saudável, espero - que não temeremos o tempo, e viveremos o que tiver de ser vivido desapegados dessa fardo que se torna a idade no bolo de aniversário das pessoas. Chegará esse tempo em que poderemos caminhar junto com ele, com todas as suas idiossincrasias, como bons e novos amigos, porque eles nunca mais serão velhos.

Porque velho, baby, velho é só o mundo.
E como todo idoso, ele há de um dia a tudo e a todos docemente esquecer.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Nescau, amor e carnaval.

Carnaval ela pula. Na cama e acorda só na hora de dormir.
Carnaval ela bebe. Nescau, açaí, suco de bacuri e muita, muita água.
Carnaval ela se acaba. E se começa.
Carnaval ela dá. Risos.
Carnaval ela se joga. Na rede desafinando o violão.
Carnaval ela pira. Em filmes que não fazia ideia que eram tão bons.
Carnaval ela corre. Pela cidade fantasma, até a praça, na chuva.
Carnaval ela canta. Aqueles sertanejos antigos vergonhosamente apaixonantes.
Carnaval ela suspira. Lendo certas mensagens alegóricas.
Carnaval ela fantasia. Mil histórias, mil estradas.
Carnaval ela só odeia,
porque Carnaval acaba.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Cabe

Parei para olhar o céu hoje de manhã enquanto corria.
Hoje em dia é tão fácil não olhar.
Fica todo mundo passando de um lado pro outro e os semáforos hipnotizam.
Parece que perdemos o medo de não ir para lá.
Mas, eu olhei bem para o céu hoje e meu Deus! como é enorme.
Se cabe o mundo todo dentro do céu,
por que diabos haveria de dentro do céu não caber todo mundo?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Pichações e amarelinha

Então, escrevo.

Escrevo para lembrar das pichações engraçadas em alguns muros da cidade, do jardim da primeira casa da vovó, do papagaio que só sabia falar prego e Portugal, da luz do sol entrando em technicolor pela janela daquela pousadinha surreal em Ajuruteua, de todas as férias, da liberdade de poder usar tênis e vestido ao mesmo tempo, do Ricco dormindo de barriga para cima na frente da porta, me matando de dó, me fazendo pular a janela para poder sair e do Pooky assistindo TV como se estivesse entendendo tudo. Essas coisas eu tenho medo de esquecer. Então, escrevo.

Escrevo porque é quando consigo me calar. Alone, na solidão perfeita que, pensando bem, não é tão ruim assim. Olho a barrinha de texto piscando no Word e me concentro em alguma música que eu elegi minha sem ser, em alguma língua que eu quero falar, naquelas risadas predestinadas, em algum amor que eu ainda quero amar. Na vontade de jogar tudo pro alto e tentar o novo. De novo.

Descrevo um chalé rodeado de árvores no fim de semana, calça xadrez, bolinhos de chuva e confiança. Uma necessidade completa de apenas os pés na água e a praia como companhia. Um andar compassado com um tempo que não saiba o que é pressa. Pequenos segredos abertos somente com a minha chave. Me imagino saindo de um quarto com flor amarela no vaso porque eu adoro amarelo, revista de ciências na cabeceira, caneca de café encostada no pé da cadeira, um computador, vitrô com batente de madeira, uma pilha de livros que ainda vou entender porque comprei e não li, indo virar o vinil, pulando amarelinha num chão de paralelepípedos. Aquela gostosa sensação de que valeu a pena.

Escrevo e só. Para lembrar que estamos todos improvisando e que o medo sempre caminha conosco. Porque virá o dia em que as coisas farão sentido. e chegarão pessoas novas, e quem sabe eu poderei confiar nelas porque não terá perigo. O tempo em que não precisarei escutar minhas grandes tragédias, sustos, desesperos, lágrimas e deusmelivre. O dia em que não saberei que horas são, meu Deus, o anúncio tem que ir pro jornal hoje! e quanto é mesmo o teto que eu não ganho? Ah, dane-se. Essas coisas matam a gente aos poucos.

Escrevo para lembrar que a minha vida daria um livro que ninguém gostaria de ler, mas que teria capa colorida igual a alguma pichação engraçada que eu vi na cidade. E disso eu tenho uns amigos que iam gostar.




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Noite clara

Insônia serve mesmo pra gente se contorcer na cama e bagunçar a nossa estante mental. Essa noite foi assim, bem clara. Tão clara que, de repente, plim, enxerguei tudo.

É mais ou menos assim: quando se vive emparedada entre horários, reuniões e outros compromissos com muito sono no meio, não dá tempo de ver o que a gente tá fazendo. Não dá tempo de ver se magoou ou fez alguém feliz. De ver o que está comendo, o que está vestindo, onde está pisando. E assim, sem pai nem mãe, a pessoa é capaz de achar que está tudo certo porque não tem censura, não tem limite, nem ninguém pra dizer “ei, que grosseria!” ou “ei, você tá muito elétrica, menina!” ou “ei, senta aqui que hoje nem te vi direito”, porque se não me incomoda e ninguém fala, pra mim tá tudo certo.

Começo a querer gente pra todo dia, tipo pai e mãe, que nunca são visitas. Minhas defesas vão ruindo e revelando a maravilha de uma rotina com gente que não me dê o trabalho de me apresentar do zero, que me conheça mesmo e não tenha vergonha de me pedir pra baixar a bola, alongar o pavio e calar a boca quando eu começar a atropelar as palavras. Coisas que passam batido, porque, tirando os velhos amigos que já perderam o respeito, ninguém fala. E como pra mim está sempre tudo bem, as coisas vão indo assim, meio de qualquer jeito. Aí pensei que, nossa! essa função é ótima pra quem se importa o suficiente com você, e pode ser o contraponto que te impede de ficar insuportável, porque requer amar, suportar e segurar, sem precisar ser perfeito ou dono de toda a verdade do mundo, e que só dá pra ter isso com quem é amigo, muito amigo.

Mas esse foi um clarão que me acordou três da manhã e não vale a pena continuar porque já são quase seis e eu preciso me devolver pra estante.